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Flávio na CPI do INSS e CPI do Master podem antecipar disputa decisiva pela bandeira anticorrupção


| Por: Leopoldo Vieira |

A eventual participação do senador e pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS, somada à articulação — com endosso de petistas — para criar uma CPI do Banco Master, pode antecipar a polarização eleitoral em torno da corrupção, tema que tem funcionado como gatilho do sentimento antissistema da população. Trata-se de um afeto político que o governo ressignificou parcialmente a seu favor, mas explorado com sucesso pelo bolsonarismo desde a operação Lava Jato.

O depoimento do dono do Master, Daniel Vorcaro, previsto para após o Carnaval na CPI do INSS, tende a conectar esse colegiado a uma CPI específica sobre a sua instituição. Informações atribuídas ao banqueiro indicam que ele tem poupado o Centrão e apontado seletivamente envolvimentos de petistas. Seus tentáculos desgastaram parlamentares do PL e o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Ao mesmo tempo, o fantasma de uma delação premiada aumenta a pressão por um acordo de autoproteção no interior do establishment político, envolvendo os Três Poderes.

Uma das alternativas em discussão é bloquear uma CPI do Master, que depende dos presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, com chancela do STF. Os chefes do Congresso têm interesse na preservação da estabilidade institucional associada ao status quo das emendas parlamentares, um risco fiscal estimado em R$ 60 bilhões que se encontra sob escrutínio da Corte. Nesse arranjo, não se descarta a concessão de prisão domiciliar ao ex-presidente Jair Bolsonaro, principalmente se contribuir para reorganizar o tabuleiro eleitoral em favor de uma alternativa de centro. Um dos instrumentos para viabilizar esse desfecho seria a derrubada dos vetos ao chamado PL da Dosimetria, o que, nessa jogada, precisaria de aval do Executivo.


(Reprodução/Sul 21)

IMPASSES PARA UMA SAÍDA "À BRASILEIRA

As oscilações recentes no relacionamento com o Congresso, porém, sugerem riscos para o Planalto caso o Centrão atue, como se espera, como pêndulo dos rumos das CPIs e da costura desse pacto. Não por acaso, enquanto busca recompor pontes com Motta e Alcolumbre, Lula intensificou seu discurso antissistema defendendo o fim da escala 6×1, uma pauta eficaz mesmo limitada à agitação e propaganda, e criticando “magnatas do crime, que vivem no andar de cima”. O petista também não recuou no apoio ao Banco Central (BC) e administra cartas na manga, como uma provável cooperação anticriminal com Washington focada no sistema financeiro, e uma apuração ad hoc da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE) sobre o Master, sob condução do governista Renan Calheiros.

Nesse sentido, o governo sinaliza que seguirá com investigações próprias independentemente da instalação de uma CPI do Master. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, afirmou que o Legislativo não pode orientar a atuação da Polícia Federal (PF), assim como o Executivo não deve interferir nas decisões do Congresso, reiterando a ideia de reabilitação institucional com reacomodação desarmônica das prerrogativas dos Poderes. A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, apontou que vê um bônus político potencial na disputa aberta de narrativas, dizendo que “o governo vai enfrentar a situação que vier”.

Na CPI do INSS, o PT deve insistir na convocação do senador Bolsonaro e na quebra de seus sigilos, enquanto o relator do colegiado, Alfredo Gaspar, do Centrão, pediu medidas semelhantes contra o empresário conhecido como “Lulinha”, filho do presidente. Ainda que esses movimentos acabem se neutralizando mutuamente, o timing favorece menos Flávio, pois é quem precisa de um palanque antecipado, mas também quem, ao obter isso, corre maior risco de superexposição.

Ao sinalizar rejeição a uma “saída à brasileira” com disposição para enfrentar o tema da corrupção, Lula constrói uma oportunidade para expandir a reconstrução de sua imagem depois da dinâmica denunciada por juristas como lawfare, o uso instrumental da lei para perseguição política. Em um ambiente de polarização antecipada, quem conseguir capturar moralmente a bandeira anticorrupção tende a obter um diferencial decisivo, ainda não precificado, em uma disputa que pode ser definida na “margem de erro”. Esse cenário pode se precipitar já no primeiro turno, sobretudo se, rechaçado como vice na chapa de reeleição de Tarcísio de Freitas em SP, o comandante do PSD, Gilberto Kassab, deslocar os três presidenciáveis da legenda centrista para disputas ao Senado, onde ganharia mais como fiador da estabilidade entre 2027 e 2030.