Rússia sugere endosso à anexação da Groelândia pelos EUA; Trump quer "grande papel" a Lula em "Conselho da Paz"
| Por: Leopoldo Vieira |
Ao classificar a Groenlândia como uma “conquista colonial”, e não como um território originalmente dinamarquês-europeu, a Rússia sinaliza endosso à anexação da ilha pelos Estados Unidos, como pretende seu presidente, Donald Trump.
“Não era nem uma parte natural da Noruega nem uma parte natural da Dinamarca. Trata-se de uma conquista colonial. O fato de que os habitantes agora estão acostumados e se sentem confortáveis é outra questão”, afirmou Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, nesta terça-feira.
A declaração é idêntica à visão de Trump sobre a propriedade da Groenlândia. “Não existem documentos escritos, apenas se sabe que um barco atracou lá há centenas de anos, mas nós também tivemos barcos atracando lá”, disse o presidente americano, em resposta a um pedido de diálogo feito por Noruega e Finlândia.
Segundo Lavrov, Washington sabe que Moscou não deseja controlar a ilha — uma alegação usada pelos EUA para defender a tomada do território, mesmo que isso ocorra sob prejuízo da sobrevivência da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a aliança militar entre americanos e europeus firmada durante a Guerra Fria. A fala do chanceler russo ainda aponta concordância com a ideia de dividir o mundo novamente em zonas de influência geopolítica, como sugeriu Trump ao reivindicar o direito de exploração econômica do Hemisfério Ocidental, após o sequestro de Nicolás Maduro.
(Reprodução)
PARA ONDE VAI O MUNDO?
A ofensiva americana pode levar a Europa a aprofundar os laços com a América do Sul, como se viu no acordo com o Mercosul, e com a China. Se essa tendência pode beneficiar o Brasil, que integra o Hemisfério Ocidental, o mesmo não se pode dizer de um relacionamento mais estreito com a China, que dependeria de os europeus realmente disporem de munição tarifária e militar suficiente para conter Trump.
Cabe lembrar que o centro político, que ainda dirige a Europa, é um alvo primordial de forças inspiradas no MAGA (“Make America Great Again”), interessadas em assumir a direção ideológica de suas bases sociais. Ou seja, a Europa pode “cair” por dentro de seus próprios países, sobretudo se governos adotarem pautas percebidas como impopulares. Também podem surgir divisões internas nas elites econômicas e políticas locais sobre aderir ou resistir a Trump.
Em artigo publicado no New York Times, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que “sem regras coletivamente acordadas, é impossível construir sociedades livres, inclusivas e democráticas”. O texto define a visão do Brasil em meio à reorganização da ordem global pelos EUA.
Ao mesmo tempo, Trump convidou Lula a integrar um "Conselho da Paz", inicialmente voltado à reconstrução da Palestina, mas que analistas apontam como embrião de uma “ONU paralela”. O gesto indica um teste de Trump quanto à “química” recente com Lula. Em uma fala também nesta terça, o republicano destacou novamente que gosta do petista e que espera que o brasileiro tenha um "grande papel" no órgão.
Assim, o cenário aponta que o chamado “mundo livre”, que inclui o Brasil, terá de se equilibrar entre a preservação mínima das atuais regras internacionais e a gestão das “químicas” entre lideranças mundiais para conduzir esse processo, seja ele de transição ou ruptura.