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Vincular Lula a Maduro, pedir interferência eleitoral americana pode ser contraproducente para a oposição, diz Eurasia



| Por: Leopoldo Vieira |

As estratégias de vincular o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva a Nicolás Maduro e de defender que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, interfira nas eleições brasileiras — por meio de pressão diplomática ou política — podem se mostrar contraproducentes para a oposição, segundo análise da equipe liderada por Ian Bremmer, presidente da Eurasia Group, a maior consultoria de risco político do mundo para grandes corporações e investidores.

Apesar de declarar que os ataques militares à Venezuela e o sequestro de seu presidente remeteram “aos piores momentos de interferência na política da América Latina”, Lula não havia reconhecido a vitória de Maduro, por não comprovar o resultado eleitoral. Além disso, a maioria dos brasileiros percebeu as sanções e tarifas impostas por Trump como uma afronta à soberania nacional. Conforme a Eurasia, qualquer tentativa de Washington de interferir nas eleições deste ano poderia provocar reação semelhante.

De acordo com os analistas, o ex-presidente Jair Bolsonaro segue como o fiel da balança da direita brasileira. No entanto, vêem seu filho e candidato imposto ao campo do centro e da direita, senador Flávio Bolsonaro, com elevada rejeição, que seria reflexo da profunda impopularidade da família. Há três anos, apoiadores do ex-presidente invadiram as sedes dos Três Poderes, em uma intentona golpista frequentemente comparada à do Capitólio. Episódios que produziram efeitos políticos distintos para a extrema direita em cada país, na visão desses especialistas.


(Ricardo Stuckert)

O BRAZIL E O BRASIL

Para Bremmer, a política externa de Trump oscila entre as lógicas do FAFO (“Fuck Around and Find Out”, “quem brinca com fogo, se queima”) e do TACO (“Trump Always Chickens Out, “Trump sempre recua”). Países que desafiam Washington e demonstram fraqueza são FAFO, como Canadá e Venezuela, que voltou a ser zona de influência americana. Tratando a Europa como FAFO, Trump sugeriu que o preço da segurança do continente é a venda da Groenlândia para os EUA sem resistência. “Rússia e China não terão medo algum de uma OTAN sem os EUA. A única nação que China e Rússia temem e respeitam são os EUA reconstruídos por Donald Trump”, afirmou em suas redes sociais, sem descartar uma ocupação militar americana do território dinamarquês. Já países como China, Rússia e Brasil são TACO, devido ao custo alto da retaliação para os EUA, ainda segundo Bremmer.

Nesta quinta, o presidente Lula retomou sua agenda de 2026 com o ato em memória ao 8 de Janeiro, que classificou como “o dia da vitória da democracia”. Como esperado, vetou a redução de penas para Bolsonaro, cujo objetivo seria manter a inelegibilidade do ex-presidente, mas em prisão domiciliar, em troca de seu endosso à candidatura presidencial do governador paulista Tarcísio de Freitas. Em sincronia, Freitas foi descartado pelo senador Ciro Nogueira, que agora diz apostar em Flávio, que criticava como inviável.

A ausência dos chefes do Legislativo e do Judiciário no evento entregou a Lula a posse simbólica da bandeira democrática, que deve ser empunhada ao lado da bandeira nacional nesta largada do ano eleitoral. Segundo pesquisas mais recentes, o chamado “PL da Dosimetria” enfrenta rejeição majoritária: 47% na Quaest e 63% na AtlasIntel. Articulações da oposição para interromper o recesso parlamentar e derrubar o veto presidencial podem, mais uma vez, favorecer a narrativa antissistema do governo, já que a opinião pública vê com estranhamento legisladores interromperem suas férias.

Na sequência, o petista deve liderar o debate sobre o fim da escala 6x1 e outras pautas com potencial de conter discursos de “mudança de regime”, ao mesmo tempo em que avança em acordos de ganha-ganha com Trump, que defendeu proibir grandes investidores de comprarem casas nos EUA, para baratear o preço para as famílias. Retóricas distintas, interesses comuns: cooperação e estabilidade regional. Afinal, Lula disputará a reeleição em outubro. Já o republicano, como ele próprio reconhece, poderá enfrentar um processo de impeachment caso perca a maioria no Congresso para os democratas nas eleições de meio de mandato, em novembro.