| Por: Leopoldo Vieira |
No próximo ano, alguns vetores interligados tendem a organizar a matriz de risco político brasileira: o início do ciclo baixista da Selic; os desdobramentos do caso do banco Master; os efeitos da amizade entre os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e dos Estados Unidos, Donald Trump; o processo eleitoral; e como o mercado financeiro traduzirá esse conjunto no câmbio, inflação, juros, dívida, crescimento e sustentabilidade fiscal — elementos considerados capazes de influenciar o desfecho de uma disputa que se antevê acirrada, embora com vantagem do incumbente.
(Henrique Meirelles/Internet)
Juros: “rali” Galipolo
Com a Selic encerrando 2025 em 15%, a bolsa brasileira surpreendeu os pessimistas e registrou seu melhor desempenho desde 2016, com valorização de 34%, renovando sua máxima histórica de fechamento 32 vezes ao longo do ano. A principal explicação, de acordo com economistas, reside no protagonismo do capital estrangeiro, que ocupou o espaço deixado pelos investidores institucionais locais no fim de 2024, quando Lula optou por um ajuste fiscal compartilhado. Os juros altos no Brasil combinaram com os cortes nos EUA e maior percepção de risco naquele país devido aos tarifaços, impulsionando a entrada de dólares. Isso fortaleceu o real e segurou a inflação, garantindo ganhos duplos ao “gringo” comprado em renda fixa e companhias brasileiras. Uma estratégia bem conduzida pelo presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galipolo.
Quando a Selic começará a cair?
Na contramão da maioria da Faria Lima, corretoras como a BGC preveem que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve iniciar o ciclo baixista dos juros com um corte conservador de 0,25 ponto percentual na reunião de janeiro, avançar com dois cortes robustos de 0,75 p.p. e um de 0,50 p.p., e desacelerar com três cortes adicionais de 0,25 p.p., levando a Selic a 12% ao fim do ano.
A velocidade terrível da queda
Uma leitura política possível dessa trajetória é que o um início conservador permitiria acolher o chamado “risco Flávio” sem desconsiderar indicadores que, na visão do Bank of America (BofA), já sustentam o começo do afrouxamento. Cortes mais expressivos coincidiriam com o aquecimento do processo eleitoral, porém sem ameaça fiscal consistente, conforme consultorias como a Eurasia Group. Uma reta final mais contida funcionaria como sinal de cautela diante da transição para 2027, com riscos associados ao resultado eleitoral e à expectativa por um ajuste duro, por ora, sem acordo nacional.
Master: os dois andares de cima
Empresários como Lawrence Pih defendem que o debate sobre o banco Master se apoie em fatos e nos vínculos de Daniel Vorcaro com o Centrão, a direita tradicional e a ultradireita. Neste aspecto, técnicos orçamentários consideram que o mercado subestima o risco político e fiscal embutido na expansão das emendas parlamentares, contra o que veem as decisões do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), como mitigadoras. Em paralelo, a reação de entidades do sistema financeiro em defesa da autonomia do BC, ante uma especulada anulação da liquidação do Master, abre uma oportunidade para investidores e empresários demarcarem fronteiras na opinião pública entre o “andar de cima” e o “andar de cima do crime organizado”.
Lula & Trump Corp.
O acordo de cooperação firmado entre Brasília e Washington para o combate ao crime organizado envolve investigações sobre cerca de 40 fundos de investimento brasileiros e outros 17 sediados nos EUA, com foco no rastreamento de operações suspeitas de lavagem de dinheiro. Em dezembro, Lula destacou que ele e Trump, que não tolera perdedores, tornaram-se amigos, o que a oposição continua pagando para ver, apesar da revisão parcial de tarifas e sanções.
Planalto: tendências eleitorais
O cientista político Josué Medeiros, da UFRJ, sustenta que a vantagem do senador Flávio Bolsonaro, que detém rejeição recorde, sobre o governador Tarcísio de Freitas, na pesquisa Quaest de 16 de dezembro, praticamente inviabilizou uma terceira via. Coordenador do Observatório Político e Eleitoral (OPEL), Medeiros avalia que um confronto direto entre Lula e Flávio pode facilitar a reedição da frente ampla que garantiu a vitória petista em 2022, e projeta o campo do centro e da direita priorizando arranjos regionais com mira no Legislativo.
Como diz o jargão farialimer, o “gringo”, que minimiza riscos de manutenção do governo atual, manda na bolsa brasileira, o que recomenda mais atenção ao racional estrangeiro na análise local da matriz de risco político em 2026.