Tarifaço: risco de 'Stalingrado tropical' aumenta

                                     


(Urbana Caipira)

Por: Redação

“Era um dia claro e frio de abril, e os relógios marcavam treze horas.” — 1984, de George Orwell (1949)

| O governo do presidente americano, Donald Trump, confirmou que o tarifaço de 50% aplicado a produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos entrará em vigor, sem recuo, no próximo dia 1 de agosto. Para isso, prepara uma nova declaração de emergência para justificar as taxas politicamente motivadas contra um país com o qual possuem balança comercial superavitária.

Embora o presidente Lula tenha adotado um tom mais duro em discursos recentes, o governo brasileiro não pretende aplicar medidas de reciprocidade neste momento. Apesar disso, setores do establishment político, econômico e militar, utilizando o pretexto de uma diplomacia cautelosa e pragmática, já se antecipam em responsabilizar o Presidente da República pelo que a revista The Economist, liberal-conservadora, chamou de "uma das maiores interferências na América Latina desde a Guerra Fria"

As pesquisas recentes demonstraram que o governo Lula recuperou parcialmente a popularidade após a campanha acusada de estimular ricos vs. pobres. Isso aconteceu na véspera da blitzkrieg comercial, que acabou por somar mais pontos à aprovação governista nos dias posteriores.  O mercado passou a avaliar “qual é o jogo final” e prefere não tomar decisões com base em previsões eleitorais, uma vez que a percepção sobre a competitividade do governo oscilou recentemente.

Enquanto o tarifaço não produzir efeitos práticos, analistas acreditam que o apelo da soberania constrangerá a cúpula do Parlamento e o grupo de grandes empresários, banqueiros, agricultores, investidores e gestores conhecido como PIB a convergir com o Palácio do Planalto, mas isso poderá se desidratar se competir com a deterioração das condições de vida da população, das empresas e do sistema financeiro.

Tubarões farialimers anteciparam que, se Trump conseguir fechar acordos comerciais com todos os países tarifados mantendo somente o Brasil com 50%, inevitavelmente Lula será responsabilizado, mesmo que o impacto direto no País seja limitado. 

O governo poderá socorrer setores econômicos e empresas afetados com linhas emergenciais de crédito, medidas inspiradas em programas da pandemia e ao socorro ao Rio Grande do Sul, além da criação de um fundo lastreado por crédito extraordinário. Entretanto, como boa parte das propostas deve fora das regras fiscais, o governo poderá se indispor com o mercado pelas exceções e pela pressão sobre a dívida.

As pesquisas recentes demonstraram que o governo Lula recuperou parcialmente a popularidade após a campanha acusada de estimular ricos vs. pobres. Isso aconteceu na véspera da blitzkrieg comercial, que acabou por somar mais pontos à aprovação governista nos dias posteriores.  O mercado passou a avaliar “qual é o jogo final” e prefere não tomar decisões com base em previsões eleitorais, uma vez que a percepção sobre a competitividade do governo oscilou recentemente. Por isso, analistas sugerem manter a agitação e propaganda em torno de pautas populares 

Por isso, analistas sugerem manter a agitação e propaganda em torno de pautas populares (justiça tributária, redução da jornada de trabalho) e unir o aspecto popular e nacional da resistência, demonstrando que o tarifaço é uma orquestração do verdadeiro "sistema" contra a população brasileira, como "Trump taxa o Brasil a favor de Bolsonaro, mas em nome dos super ricos". 

CONGRESSO

O deputado Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, amigo da família Trump e neto do último presidente da ditadura militar, João Batista Figueiredo, atuam nos bastidores de Washington para articular um encontro entre o próprio Trump, o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, de acordo com relatos feitos à imprensa.  

A ideia seria apresentá-los, assim como o Centrão, como negociadores capazes de superar a guerra tarifária. Em troca, Motta e Alcolumbre abririam caminho para a votação da anistia aos golpistas e não resistiriam à tramitação dos pedidos de impeachment de Moraes. A recusa deste plano acarretaria em sanções americanas aos dois chefes do Congresso. Além do aumento tarifário, o governo Trump avalia invocar a Lei Magnitsky para sancionar autoridades brasileiras dos Três Poderes. 

Um grupo de senadores brasileiros embarcou para Washington levando um recado direto às autoridades americanas: se os EUA insistirem em fechar o mercado para o Brasil, estarão empurrando o país para uma aliança ainda mais forte com a China. Para internacionalistas, o problema é se a China terá condições de dar retaguarda Brasil caso a crise se aprofunde. Não foi o que ocorreu em 2016, com a deposição da então presidenta Dilma Rousseff.

MILITARES

As Forças Armadas se movimentam para tentar conter os danos colaterais no campo da defesa, tecnologia militar e geopolítico, rejeitando um realinhamento com China e Rússia, mesmo que para contornar restrições americanas. Enquanto isso, cresce a percepção de que há uma articulação internacional para desestabilização institucional, com envolvimento da CIA e anuência da Casa Branca, segundo colunistas de relações internacionais.  

A lembrança do 8 de janeiro segue latente: na ocasião, a hesitação dos militares golpistas se deu após alertas de Jake Sullivan e Juan González, altos assessores do governo Democrata de Joe Biden. Agora, com o Republicano Trump no poder, esse freio de contenção se dissolve, e alas das Forças Armadas podem enxergar um cenário mais permissivo. 

Por outro lado, bilionários e investidores ligados ao Partido Democrata, defensores da transição energética e da taxação de super ricos, estão em rota de colisão com Trump.  Não por acaso, a ofensiva de Trump já encontrou resistência no Senado americano. 

Em carta, 11 senadores classificaram a sobretaxa de 50% sobre o Brasil como “abuso de poder”, demonstrando os prejuízos causados à economia americana, o que abre uma janela de oportunidade para o governo brasileiro fortalecer relações com setores progressistas dos EUA para sua retaguarda na contradição interna.

MERCADO

A Casa Branca também pode proibir instituições financeiras americanas de renovar empréstimos a empresas brasileiras, inclusive bancos. O banco JP Morgan previu que, diante da provável escalada da guerra comercial, o Brasil pode enfrentar uma recessão no segundo semestre.  

Ainda assim, dificilmente o mercado vai operar eleição brasileira com maioria absoluta para um lado, mas poderá se acomodar em "60% a 40%" a favor do governador paulista, Tarcísio de Freitas, conforme investidores influentes, considerando uma disputa polarizada com Lula. Porém, é bom ressaltar que Freitas foi preterido como chefe da direita local por Trump, na carta do tarifaço. 

A recomendação é cautela, com preferência por ativos conservadores, como pós-fixados e títulos indexados à inflação. Especialmente em caso de revide brasileiro, o que pode afetar o câmbio e dificultar cortes na taxa básica de juros pelo Banco Central (BC). Estes cortes, até antes da crise previstos para iniciar no fim do ano, poderiam favorecer a reeleição do presidente Lula. 

No fim de semana, o presidente discursou que, embora vá apoiar os empresários afetados, seu lado é o povo pobre. Gestores de investimentos veem uma encruzilhada no médio prazo: ou o governo faz um forte ajuste fiscal, o que vislumbram como viável em caso de vitória da oposição, ou seguirá para um descontrole inflacionário e insustentabilidade da dívida. A não ser que houvesse um expressivo crescimento econômico.

PT

Em evento com a Faria Lima, o presidente nacional do partido, Edinho Silva, em referência ao tarifaço de Trump, disse que "uma 3ª Guerra Mundial pode não ser bélica, mas econômica, e pode ser tão devastadora quanto a guerra bélica", o que, em tempos de emergência climática, torna o ataque americano ao Brasil em um "Stalingrado tropical".

A analogia é precisa, pois o governo Trump cada vez mais se parece com a nova face do nazismo, como afirmou o presidente Lula. Basta observar seu modo de agir: guerra relâmpago ou blitzkrieg (o próprio tarifaço ao Brasil, o bombardeio surpresa ao Irã) e espaço vital (ameaça de anexação do Canadá e Groelândia).

Trata- se também de um conflito simbólico entre o gigante do norte e o gigante do sul, entre a potência mundial do supremacismo branco e a potência latino-americana, população que Trump tem tratado como bodes expiatórios, como foram os judeus na Segunda Guerra. 


FONTES: Bloomberg, O Globo, Infomoney, PlatôBR, Forbes, Folha de S. Paulo, BBC Brasil, Valor Econômico, The Economist.




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