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Entrevista à TC News: Contexto aponta favoritismo de Lula para 2026, controle da agenda


| Por: Leopoldo Vieira | 

Nesta segunda-feira, dei uma entrevista à TC News, canal da TC (ex-TradersClub), maior maior comunidade de investidores da América Latina, para o mercado financeiro. Na pauta, os principais temas que interessam a empresários e investidores.

A conversa foi com os jornalistas Leonardo Levatti, Luciano Costa e Camila Nascimento. Na transcrição, os três foram unificados pelo nome do canal. Confira abaixo a transcrição (editada e corrigida) e um vídeo do diálogo:


 (Nelson Almeida/AFP)

TC News: O analista político Leopoldo Vieira, na ponta da conexão, ajuda a gente a organizar os racionais para pensar o mundo político. Leo, bem-vindo, uma alegria reencontrá-lo. Bom dia.

Leopoldo Vieira: Bom dia, o prazer é meu, uma grande satisfação poder participar novamente desse quadro.

TC News: Olha como você é pé-quente. Você volta aqui a tabelar conosco na TC News, antiga TC Rádio, minutos depois de uma notícia que não estava no nosso radar. Aliás, não estava no radar de nenhum investidor: a videochamada entre Lula e Trump, que ocorreu por cerca de meia hora e que, de acordo com os principais portais de notícia, é uma conversa cujo teor ainda não foi detalhado, mas que o presidente ou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, classificam como tendo sido positiva. Qual o significado político dessa conversa, ainda que nós não tenhamos acesso ao mérito em torno do qual ela girou?

LV: Essa conversa é um segundo passo no distensionamento que aconteceu na Assembleia Geral da ONU, quando o presidente Trump fez aquele gesto ao presidente Lula. Tomara que isso possa nos levar a um novo acordo tarifário em breve, que alivie para as empresas, bancos, relaxe essas sanções e possa reconstruir uma relação amistosa e fraterna entre o Brasil e os Estados Unidos, como sempre foi ao longo desses 200 anos, exceto nos períodos de tensões políticas mais graves, como a questão dos golpes militares na América Latina. É um passo importante, apesar de o tarifaço não ter tido um impacto tão grande sobre a economia quanto seus articuladores supunham ou diziam que teria, o que também foi uma ótima notícia para nossas empresas, empresários e investidores.

TC News: Como você vê esse distensionamento entre Trump e Lula interferindo na situação do Eduardo Bolsonaro, que está nos EUA e vinha forçando uma agenda de pressionar autoridades americanas por mais sanções contra o Brasil? O Lula vem até usando isso nos discursos, colocando-o como um “traidor da pátria” que está torcendo contra o Brasil. Será que isso não gera um risco de Eduardo ficar muito isolado? Como isso pode interferir na escolha do candidato da direita?

LV: O deputado Eduardo Bolsonaro já está bastante isolado. A atuação dele acabou isolando toda a família. Hoje o protagonismo no Congresso está dividido entre o Centrão e o governo Lula. O que está chamando a atenção da opinião pública é a agenda positiva do governo Lula. No primeiro momento, aquela campanha da justiça tributária em reação à derrubada do decreto do IOF. Depois teve o tarifaço, que o beneficiou. Teve a recuperação nas pesquisas. Depois veio o “pacote da impunidade”, que acabou gerando um desgaste enorme ao Congresso e, de tabela, ao Centrão, agravando a situação do Legislativo como o poder mais mal avaliado. Tivemos essas manifestações recentes e, depois, mais um ciclo de pesquisas que mostra que o presidente Lula conseguiu avançar sobre o centro e a classe média.

Há uma tentativa de aprovar um PL da dosimetria, que reflete uma tentativa de acordo em que Bolsonaro ficaria inelegível, mas não iria para a prisão propriamente dita — o que também já está meio telegrafado por ele ser um ex-presidente da República. O Centrão está numa situação desfavorável, o que muita gente não imaginava que poderia acontecer, e isso começa justamente quando o ministro Flávio Dino questiona a transparência e a rastreabilidade das emendas parlamentares. Ele abriu agora um processo para analisar o próprio orçamento impositivo.

O campo em torno do ex-presidente Bolsonaro está em conflito com o Centrão por conta dessa resistência ao acordo, que não é bem uma resistência ao mérito, mas ao timing de fazê-lo. O problema é que nesse timing não se está jogando sozinho, mas com o governo em uma ofensiva política. Se não for fechado um acordo imediatamente, publicamente declarado, a tendência é que o Palácio do Planalto aprofunde o controle que assumiu da agenda e caminhe para um favoritismo à reeleição. Um favoritismo leve, por margem estreita, uma polarização acirrada... mas, sem dúvida nenhuma, uma ofensiva, um momento bom e que tende ao controle da agenda.

TC News: Leopoldo, circulam na mídia várias ações, pautas que o governo planeja e estuda para angariar popularidade já pensando em 2026. E aí tem a questão do aumento do Bolsa Família, a gratuidade do ônibus e também até da escala 6x1. Eu queria a sua visão de como está o ambiente político para aprovação desses temas.

LV: Da escala 6x1, a tendência é que se transforme numa bandeira eleitoral, assim como a tarifa zero, que está gerando preocupações com o risco fiscal. Não há tempo político para que o Congresso aprove a redução da jornada. Isso é um tema complexo, que vai exigir uma ampla concertação, ouvindo empresários e trabalhadores. É possível que haja um avanço este ano ainda, talvez no início de dezembro... é o que anda se falando. 

É uma pauta que tem cerca de 70% de aprovação da população, fura a bolha e trata de um dos assuntos mais pertinentes da nossa época, que é a questão da jornada de trabalho. A gente tem visto casos de crise de saúde mental, ansiedade, depressão, exaustão. Essa situação é um catalisador de pautas sociais, o que coloca, em consequência, a agenda do campo do centro e da direita em desvantagem. 

Sobre a tarifa zero, a informação do Ministério da Fazenda é que o presidente Lula pediu um estudo, que vai levar um tempinho. E além de ser um estudo, a tendência também é que, quando vier algo prático, sejam primeiramente projetos-piloto, alguns testes em capitais e regiões metropolitanas. Não vejo como um tema que ameace as contas públicas ou que coloque um risco fiscal efetivo na mesa.

Na campanha de 2026, na esteira da aprovação da Reforma do Imposto de Renda e de todo esse processo de ofensiva política, o fim da escala 6x1 será uma bandeira poderosíssima, assim como será poderosa a bandeira da tarifa zero.

TC News: Leopoldo, agora se atendo ao curto prazo: a MP 1303 deve ser decantada ao longo dos próximos dias na Câmara dos Deputados, uma vez que a MP vai caducar se não houver apreciação dos congressistas até a próxima quarta-feira. Com qual cenário-base você está trabalhando aí na capital federal? Essa MP deve ter apreciação do Congresso e favorecer o governo, a exemplo do que foi a votação da isenção do IR da semana passada, ou não? No caso dessa votação, há muito mais dificuldade e complexidade?

LV: A fase da dificuldade e da complexidade dessa medida passou. A gente está na fase dos ajustes finais. O que pode haver é um tensionamento de plenário, uma agitação da oposição, alguns setores do Centrão com motivações diferentes — alguns com foco na questão fiscal, outros na desestabilização do governo. Mas eu acho que o relatório do deputado Carlos Zarattini tende a ser aprovado, porque não tem como o Congresso, assim como no caso da Reforma do IR, votar contra o fechamento das contas, principalmente quando esse fechamento é baseado na taxação da alta renda.

O tema social ganhou grande destaque no país. Essa discussão dos super-ricos pegou, e o Congresso fica muito desgastado, como se viu no caso do IOF anterior. O governo fez uma campanha que apresentou o Congresso como uma espécie de cidadela dos super-ricos — além de já estar desgastado como establishment político, por corrupção, emendas etc. Foi a justiça tributária, não o tarifaço do Trump, que começou a recuperação do governo.

Se, na Reforma do IR, o Congresso tivesse derrubado a compensação, o Centrão teria pago uma conta cara na sociedade por ter protegido a alta renda naquele contexto. O mesmo vale para a medida do IOF. É muito improvável que o Congresso compre uma briga desse tamanho com o governo agora, tendo a opinião pública no estado em que está.

TC News: Vamos para a última pergunta. Leopoldo, eleição e política são muito sobre narrativas, então queria entender qual você vê sendo a grande narrativa e o grande tema dessa próxima eleição. Você até comentou que o presidente Lula vem trazendo medidas sociais, aventando agora tarifa e escala 6x1. E para a direita, o que sobra? A gente vê o tema da segurança sendo bastante abordado, uma preocupação dos brasileiros. Mas, por outro lado, Tarcísio, ou quem for o candidato da direita, não tem um risco de ficar um pouco emparedado por essa pauta da anistia, essa pauta da defesa do Bolsonaro? Não pode atrapalhar um pouco na hora de colocar uma agenda para frente? Como você vê a disputa de narrativas? Você espera um Lula bem à esquerda na próxima eleição, ao invés de fazer um movimento para o centro?

LV: Eu acho que o Lula vai repetir um pouco o roteiro que ele fez em 2022, com mais ênfase na pauta social. Ele já tem na mão a Reforma do IR, as bandeiras da tarifa zero e do fim da escala 6x1. Ele tem um conjunto de dados econômicos positivos para mostrar e também os programas que reativou, que tinham relevância para uma camada da população: PAC, Bolsa Família, agora o Gás do Povo ou a tarifa social de energia. Então, está bem empacotado.

Em termos fiscais, embora se possa falar na insustentabilidade do arcabouço ou em um “acerto de contas” fiscal a partir de 2027, o fato é que as metas de resultado primário que têm sido anunciadas têm sido cumpridas, ainda que na banda inferior. Esse é um compromisso muito caro para o ministro Fernando Haddad, então ele vai se esforçar muito para conseguir entregar essas metas com as quais se comprometeu. Esse acordo tácito, informal, entre o governo Lula e o mercado financeiro, com base no arcabouço fiscal para esse período de quatro anos, provavelmente vai ter funcionado.

Então, vejo falta de espaço para esse debate fiscal ganhar força, sobretudo no contexto da forte pauta social que o governo Lula vai apresentar. Me preocupo com o que pode ser dessa candidatura de oposição, porque ela está dividida — isso é um fato. Há um acirramento no campo do centro e da direita. Eu não vejo uma candidatura fora da família Bolsonaro ir ao segundo turno sem apoio dela, sem apoio do ex-presidente. Não vejo isso em relação a Tarcísio nem a Ratinho Júnior. 

Depois do que aconteceu no último período, a candidatura Tarcísio ficou turva. Ele está muito bem em São Paulo, mas corre o risco de entrar numa disputa em que perca, ainda que por poucos votos, e desperdice a oportunidade lá. O Ratinho Júnior é uma candidatura muito local; ele é do Paraná, onde é bem avaliado, visto como gestor competente, eficiente, amplo... Dialoga com muitas forças políticas, inclusive com setores do PT, mas não é uma candidatura que, nessa eleição, seja para vencer. É uma candidatura que pode posicioná-lo para 2030, que é a mesma estratégia do Kassab para o Tarcísio: concorrer em São Paulo e, em 2030, disputar para valer a eleição, quando o Kassab acha que o Tarcísio seria imbatível.

Assim, o cenário para o centro-direita, no retrato de hoje, é desfavorável. E o clã Bolsonaro tem nomes competitivos. O nome de Michele Bolsonaro, ex-primeira-dama, é extremamente competitivo, aparece à frente do Ratinho e emparelhado com o Tarcísio. E essa história da rejeição, veja bem: “ah, porque o Ratinho tem baixa rejeição, o próprio Tarcísio ainda tem baixa rejeição...” Isso é até virar o candidato unificado contra o presidente Lula, apoiado pelo clã Bolsonaro. Quando isso acontecer, qualquer candidato que esteja na raia antagônica ao Lula vai disparar em rejeição, como reflexo da polarização.

Embora Lula esteja no terceiro mandato, ele vai para a reeleição e vai com a vantagem do incumbente. O melhor momento de largar para a eleição é justamente agora — e ele larga num contexto muito positivo para ele.

TC News: Nós temos meio-dia em ponto. Gancho, então, para nos despedirmos de Leopoldo Vieira, analista político, que topou o convite para estar aqui e trazer os seus racionais, pensando também nas eleições de 2026. Leo, muito obrigado, um abraço e até uma próxima.

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